Perrengue na perna Salvador – Vitória
Por
Marcelo Visintainer Lopes
Instrutor de Vela
Escola
de Vela Oceano
Imagens: André Larréa
Saímos de Abrolhos ao entardecer daquele mesmo dia que o motor decretou falência...
A frente fria tinha acalmado, mas
ainda havia muita correnteza contra.
A previsão demonstrava uma janela 12
horas de vento fraco até a aproximação de uma nova massa de ar que viria de
S/SW (mais uma condição contrária).
Aproveitamos aquele período precioso
para repor as energias e relaxar, pois sabíamos que a próxima frente seria
muito mais intensa e desgastante que a primeira.
Como o barco não possuía fontes
alternativas de geração de energia, a única maneira de carregar as baterias era
através do alternador.
Alternador precisa do motor
funcionando não é mesmo?
Pois é...
Tivemos que entrar no “modo economia”
afim de garantir as funções básicas do barco (luzes, piloto e GPS).
A missão a partir dali era conseguirmos
manter o barco velejando para frente com o mínimo consumo de baterias.
Ficar sem piloto, sem o chartplotter e
sem a geladeira era o menor dos problemas.
A única coisa que não poderia
acontecer era a gente ficar no escuro (sem luzes de navegação) A região é
conhecida pela quantidade enorme de pesqueiros e também pelo intenso trânsito de
navios.
Olhando no horizonte ao W/NW dava para
perceber perfeitamente a primeira massa passando pela nossa popa.
Uma estreita faixa de céu azul
demarcava o final de uma e o início da outra (no horizonte ao SW).
Dava para ver e sentir tudo o que
estava por vir...
Aquelas poucas horas de intervalo e
descanso pareciam dias de recompensa e aproveitamos cada segundo como se fosse
o último (que de fato seria).
A segunda massa de ar entrou com tudo,
bem mais forte do que a primeira e também mais rajada.
Velejamos com a vela grande toda para
cima, deixando panejar um pouco da testa. Diminuir a vela grande com aquela buja
minúscula lá na proa seria um tiro no pé.
O vento contra e a corrente contra
faziam com que a nossa velocidade não ultrapassasse os 3kt.
Com esta configuração conseguimos
manter o barco mais de pé e com alguma potência para cruzar aquelas vagas que
quebravam na bochecha.
A deriva lateral também era
administrada já que não podíamos deixar o barco cair muito para sotavento.
As 170 milhas (em linha reta) de
distância que nos separava de Vitória se transformaram em aproximadamente 250
milhas por causa do contra vento.
Tentar velejar pelo bordo positivo nem
sempre era a melhor opção em função da forte correnteza.
Um bordo negativo com a corrente mais
de proa fazia o barco avançar bem mais do que um bordo positivo com a
correnteza pegando mais de lado na quilha.
No meio da primeira madrugada a vela
grande desceu sozinha depois da adriça estourar.
Não havia adriça reserva e subir no
mastro naquelas condições poderia causar consequências sérias.
Seguimos com aquela pequena vela de
proa em meio ao mar que não parava de crescer.
O mar tomou tanto volume que as ondas passavam
dos 3m de face e as espumas das cristas já passavam de 1m.
O vento alternava entre 28kt e 35kt e
a nossa velocidade real não passava de 1,5kt, mesmo velejando um pouco mais
arribado.
Velejar totalmente contra o vento era
impossível. A buja além de pequena era uma tábua de tão chata. Faltava potência
e por isto tínhamos que velejar mais arribados e com ela um pouco mais gorda na
esteira.
O barco andava tão devagar que ficamos
avistando o Farol de Regência por dois dias consecutivos.
Nossa tripulação detesta esse farol
até hoje! Rsrsrsrsrs.
Em meio àquela lentidão cruzávamos com
gigantescas redes de pesca.
Ao arribar para desviar de uma rede
perdíamos valiosos metros.
Lá pela terceira rede eu decidi não
desviar mais.
Pensei: a próxima eu corto!
Logo fui chamado pelo rádio: atento
veleiro, atento veleiro, aqui é o pesqueiro dono da rede na sua proa.
Veleiro na escuta...
Amigo você está rumando para cima da
minha rede.
Ok, entendido amigo, mas a situação é
a seguinte: estamos velejando a 1,5kt só com uma vela de emergência. Nossa vela
principal está fora de operação e estamos com pane de motor.
Já desviamos de muitas redes, mas a
sua, além de gigantesca, está em uma posição que nos obrigaria a andar muito
tempo para trás.
Compreendo sua situação e autorizo o corte
do cabo principal.
Ele me perguntou se havia um alicate
de corte a bordo, já que o cabo principal era de aço de 8mm.
Barcos de travessia possuem alicate de
corte e ele estava bem à mão.
Toquei para cima da rede até o barco
parar.
Puxamos o cabo de aço com o croque e
conseguimos cortá-lo.
Estávamos livres!
Eu me senti uma baleia sendo solta de
uma rede.
Agradeci o pescador e seguimos
adiante.
Poucas horas depois fomos chamados
novamente: atento veleiro, atento veleiro.
Pensei: outra rede não!
Atento, atento veleiro, aqui navio
plataforma.
Pelo menos não era um pesqueiro, mas
qual o motivo do chamado?
Somos um navio plataforma e gostaríamos
de iniciar os procedimentos de partida do nosso ponto de ancoragem.
Escola de Vela Oceano - navio plataforma lá fora na linha do horizonte
O mar estava tão gigante que nem
notamos a presença do navio. Ele estava no horizonte ao leste.
Em que posso ajudar perguntei?
Vocês estão dentro do perímetro de
segurança e o navio não pode iniciar os procedimentos antes que vocês saiam
deste perímetro.
Os homens do mar são fantásticos!
Expliquei tudo o que já havia falado
para o pesqueiro e tive a mesma compreensão: ok, vamos aguardar a passagem de
vocês!
Quando a cidade de Vitória apareceu no
horizonte o vento já havia começado a diminuir de intensidade.
Eu só rezava para que ele não
acabasse, pois não seria fácil entrar na barra só com aquela vela de proa.
Adivinhem o que aconteceu?
Sim, o vento acabou a poucas milhas da
entrada da barra e a maré tocando para fora.
O dia estava amanhecendo e seguimos velejando
lentamente até avistarmos um pesqueiro.
Pedimos reboque, mas ele disse que não
tinha como nos ajudar.
Tá bem, segue o baile!
Na sequência fomos chamados pelo
rádio. Era a Marinha do Brasil.
Alguém seguiu nossa conversa com o
pescador e avisou a Marinha que havia um barco pedindo reboque.
O cara quis só ajudar, mas sem saber
acabou nos ferrando um pouquinho mais...
Em meio a todo aquele trânsito de
navios, buscávamos velocidade para não perder o leme, mas a Marinha insistia no
modelo “interrogatório”.
Demoraram tanto com as perguntas que o
tempo passou e conseguimos velejar até próximo do píer do clube.
O bote de apoio nos rebocou para
dentro e assim finalizamos a missão.
Meu respeito e toda a minha admiração
pelos tripulantes André, Carlos e Leandro!
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